Mania de perseguição

Os intelectuais de O Pasquim (principalmente Henfil, de saudosa memória) criaram inúmeras personagens na década de 70 para fazer frente ao golpe militar de 64. Entre elas, a de Ubaldo, o Paranóico, aquela que acordava sobressaltado de um pesadelo em que os ditadores o haviam emparedado vivo em seu próprio quarto. Os anos de chumbo, realmente, não foram para qualquer um (e pensar que meia dúzia de analfabetos políticos defende essa ideia de intervenção militar para resolver os problemas internos do país).

Essa mania de perseguição, todavia, acompanha boa parte dos políticos nacionais e estrangeiros (Donald Trump, presidente da maior potência mundial – os EUA, sofre de paranóia galopante, por exemplo, e vira e mexe joga a culpa de seus fracassos na imprensa (sempre ela!) e na oposição – no caso deles, o Partido Democrata. O prefeito de Taquaritinga, no início de governo, teve reflexos negativos dessa mania de perseguição, felizmente contida, que o levou a tomar (como Trump) medidas extremas antipopulares.

Um simples grito de uma criança em idade escolar já transformava o menino de rua em inconteste liderança de um movimento para derrubar o governo municipal democrática e legalmente constituído. Não era, entretanto, privilégio do atual mandatário. O chefe do Executivo passado também foi arteiro e vezeiro na arte de alimentar vaidades e posar de vítima das maldades alheias. Só faltava ele dizer como Jean Paul Sartre: “O inferno são os outros”, que na verdade soava exatamente ao contrário do que dizia.

Jogar a culpa no antecessor sempre foi mania estrategicamente elaborada pela oposição quando chega ao poder. O alcaide de plantão, contudo, exagerou na dose e quase rompeu a transição de governo num momento deveras crucial para o Município. Entre Fúlvio e Vanderlei muita gente como Pôncio Pilatos frente a Jesus Cristo preferiu lavar as mãos. Mas Deus perdoou a todos e declarou vida nova para Taquaritinga, mas a vida não jorrou com tanta abundância como na Terra Prometida e a oposição, porém, não cedeu.

Este O Defensor não tem a pretensão de, como um Dr. Vitório Ernesto Pagliuso, analisar as escâncaras a alma humana e seu âmago freudiano, mas exato é que o sonho megalomaníaco faz parte dessa entranha mal explicada do comportamento humano. Independente dos detalhes psíquicos, o equilíbrio emocional de quem governa deve ser analisado sob o peso da justiça, verdade e fraternidade e tivemos aqui mesmo, em Taquaritinga, um bom exemplo de governabilidade desse tipo: Adail Nunes da Silva, o Negão.

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O prefeito Vanderlei ao que parece superou as paranóias que povoavam sua mente no início do mandato, mas entre a mania de perseguição e a própria perseguição em si a ligação é tênue. É menos que um fio de navalha e pode passar de um lado ao outro ao sabor das brisas que sopram. A população, aliás, não sabe o que é pior: a mania de perseguição ou a própria perseguição. Ao sintonizar uma rádio local, por exemplo, soube-se de uma lamentável perseguição a funcionário público municipal. Se for verdade, dói.

Outros casos vão sendo relatados na administração pública municipal e muitos já acreditam que “nesse angu tem caroço”. Não é salutar para o governo, a convivência com essas dúvidas, porque geram incertezas. Quando se pleiteia a prerrogativa de município de interesse turístico, não podemos titubear. Quando se pleiteia o ingresso na Região Metropolitana de Ribeirão Preto, não podemos ensarilhar armas. Nosso sonho não é megalomaníaco, mas também não podemos carregar esse terrível complexo de vira-lata.

Tanto a mania de perseguição quanto a mania de perseguir não podem ser bem vindas em nossa comunidade e este O Defensor repudia qualquer das duas tentativas de se impor perante os trabalhadores, sejam eles públicos ou não.  Qualquer um tem o direito de expor suas ideias e reivindicações e fazer comentários sobre atitudes tomadas pelas autoridades. Por causa disso, não pode ficar sujeito a penalidades e sanções. Afinal, que democracia é essa?