Reportagem especial: Armadilha do baixo crescimento coloca popularidade do governo mais perto de ‘downgrade’

“Se o País tivesse aumentando a dívida para fazer infraestrutura ou investir fortemente na educação tudo isso seria diferente. Na prática, é como se uma família se endividasse para adquirir um imóvel de moradia ou contraísse uma dívida para fazer um churrasco todo o fim de semana. Estamos nos endividando para fazer o churrasco”, certifica o taquaritinguense Bruno Rodrigo Mendes.

Por: Gustavo Girotto, especial O Defensor

Em 1992, James Carville, estrategista de Bill Clinton, tornou famoso um mantra repetido em campanhas presidenciais mundo afora: “É a economia, estúpido”. Resumidamente, os resultados da eleição presidencial estão ligados às condições econômicas do País – ou seja, se a economia crescer, o sucesso acompanha evitando um downgrade (rebaixamento) na popularidade. Os últimos pronunciamentos desastrosos do presidente da República, Jair Bolsonaro, não só impactaram em perdas na Petrobras de R$ 32 bilhões de seu valor de mercado e no Banco do Brasil, mas foram minando também a expectativa de uma alta virtuosa do Produto Interno Bruto (PIB) – a soma de todos os bens e serviços produzidos.

Com a vitória de Bolsonaro, o mercado apostou em um salto maior da economia. Em dezembro, a estimativa era de um PIB de 2,8% para 2019. Se o crescimento no ano passado registrou 1,1%, segundo números divulgados pelo IBGE, as projeções atuais não são mais tão animadoras. “O atual imbróglio econômico pelas tão desejadas reformas tem travado o nível de investimento em capital físico nos últimos anos e, consequentemente, a capacidade de produção e geração de empregos do País – essencial para aumento do consumo, principal variável do PIB”, avalia Raphael Gibertoni Anselmo, taquaritinguense e economista formado pela UNESP Araraquara.

Segundo ele, em 2017 o PIB brasileiro ficou 66% abaixo do mundial e, em 2018, fechou em 1,1% –enquanto a média global registrou 3,1%, ou seja, 65% abaixo da média, “A previsão do Banco Mundial para 2019 é que a taxa de crescimento do PIB mundial fique em 2,9%. No Brasil, dado as sucessivas quedas de expectativa desse indicador pelo boletim Focus – somado a incapacidade do atual governo em negociar qualquer tipo de reforma (política ou econômica) que aumente o decadente poder de compra do brasileiro, – é razoável imaginar que em 2019 o PIB brasileiro fique entre 0,8 e 1,4%”, projeta Anselmo, relembrando que “desde 2014 o PIB do Brasil vem experimentando taxas de crescimento significativamente abaixo da média mundial, resultado que levou ao impeachment de uma presidente (Dilma Rousseff – PT) e o menor nível histórico de popularidade de outro presidente (Michel Temer –MDB). Ou o atual governo aprende a governar ou terá semelhante triste fim”, alerta.

Bruno Rodrigo Mendes, taquaritinguense e formado em administração pelas Faculdades ITES, explica que resumidamente o PIB é composto por cinco grandes variáveis: Consumo Privado, Consumo Público, Investimento e Exportações – Importações. “Dessas variáveis, o Consumo Privado está prejudicado pelo alto desemprego e pela restrição nas concessões de créditos, tanto por estratégia dos bancos quanto pelo fato de haver mais de 60 milhões de brasileiros com restrições cadastrais. O Consumo Público encontra-se engessado pelo déficit público e pela PEC do teto de gastos que, felizmente, limita o potencial de aumento de despesas do governo. O saldo da balança comercial é a única variável que vem se beneficiando por conta da desvalorização do real, contribuindo para que haja um crescimento do PIB, ainda que irrisório”, pontua Mendes, ilustrando: “se o País tivesse aumentando a dívida para fazer infraestrutura ou investir fortemente na educação tudo isso seria diferente. Na prática, é como se uma família se endividasse para adquirir um imóvel de moradia ou contraísse uma dívida para fazer um churrasco todo o fim de semana. Estamos nos endividando para fazer o churrasco”, certifica.

Vitor Guidorzzi Girotto, taquaritinguense e mestrando em Economia pela UNESP e Bacharel em Economia pela Unifesp, relata que  os dois dos componentes mais importantes do PIB são consumo e investimento. “Dessas duas variáveis, o consumo tem maior peso na composição do PIB. Ele [consumo] depende da renda auferida ou de crédito. Vivenciamos um processo de expansão do crédito na década de 2000 e que contribuiu, dentre outras coisas, para o excelente desempenho da economia brasileira durante o Governo Lula. Entretanto, com os desdobramentos da crise de 2008 – a maior já vista no sistema capitalista, é natural que haja contenção do crédito dado ao aumento do cenário de incerteza. Além da recessão do crédito, o consumo vem sendo altamente afetado pelo crescente nível de desemprego”, explica.

Fonte IBGE/PIB

Para Girotto, na prática a lógica é simples: “sem trabalho ou crédito, não há renda e consumo. A relutância do governo em focar em pautas efetivamente produtivas do ponto de geração de emprego só confirma sua incapacidade de governar. Outro elemento de impacto direto no PIB é o câmbio. A manutenção de uma taxa de câmbio sobreapreciada impõe uma lógica de desigualdade competitiva entre produtos domésticos e internacionais. Frente a isso, muitos pesquisadores afirmam que o Brasil passa por um processo de desindustrialização desde a implantação do Plano Real – e o produto industrial é um importantíssimo componente para alavancagem do PIB, assim como tradicionalmente é a agricultura”,  enfatiza.

O economista taquaritinguense Rogério “Taroba” Nohara, formado em Ciências Econômicas na Universidade Estadual Paulista (UNESP), pondera que só a Reforma da Previdência não garantirá o equilíbrio fiscal tão necessário para permitir um crescimento econômico mais robusto.  “Serão necessárias às reformas Tributária, Administrativa, Constitucional, Política e etc. É preciso criar um ambiente favorável ao desenvolvimento de negócios, tanto para a atual como para a nova economia. Educação, Infraestrutura, Ciência e Tecnologia e a Agroindústria, por exemplo, são setores estratégicos que demandam atenção especial por parte do Governo e do Empresariado”, afirma.

Por outro lado, Nohara destaca que o PIB – como indicador agregado – não mensura a real situação do cidadão brasileiro, do trabalhador. “Ele não mede a satisfação e a felicidade de cada um que paga pesada carga tributária e recebe serviços públicos insatisfatórios. Porém, é o termômetro da economia real e sua variação positiva, de preferência acima dos 3% ao ano, sinalizam uma retomada de crescimento consistente. Todos torcemos para que o Brasil dê certo e, para isso, o atual governo tem que dar certo”, classifica.

Desaceleração do PIB e seu bolso: mercado em estado ‘bearish’

Pelas previsões, o indicativo de que a economia brasileira não vai sair do lugar neste ano, ao contrário do que se imaginava no fim de 2018 –, sob a euforia do resultado das eleições, já é real. Essa mudança, na prática, afeta o humor da vida das famílias e os planos de investimento das empresas. Ninguém põe a mão no bolso enquanto as expectativas não melhorarem – o chamado “efeito cascata”.  O mercado define essa tendência como posição bearish” (como um urso), quando o animal ataca de cima para baixo”, – portanto, é o mercado “down”, quando despenca a confiança de investidores e dos consumidores.

“Em relação ao cidadão comum há alguns impactos óbvios que podem ser constatados no dia a dia. O comércio sofre com a diminuição de vendas decorrente do desemprego. Ao mesmo tempo tem mais dificuldade para se financiar junto aos bancos. Temos ainda a figura do empreendedor por necessidade, que geralmente é a pessoa que perdeu o emprego e devido à dificuldade de recolocação, opta por usar o acerto para montar um negócio. Em um cenário de consumo reduzido, crédito escasso e alta concorrência – o fechamento de várias empresas é uma variável presente”, assevera Mendes.

A redução dos gastos públicos, segundo ele, também impacta no comércio, principalmente em uma cidade como Taquaritinga que possui poucas empresas. “A prefeitura recebe menos verbas e, consequentemente, gasta menos em compras, com reajustes dos servidores – e isso reduz o dinheiro em circulação no município. Os empresários, que passam a não ter como utilizar toda a sua capacidade produtiva – já que estão vendendo menos, também perdem qualquer incentivo para se modernizar ou ampliar seus negócios. Desta forma, a economia do município entra numa espiral descendente, uma relação de causa e consequência onde ocorre uma baixa demanda por produtos e serviços. Isso acentua o desemprego, o que derruba ainda mais a demanda”, explica Mendes, alertando que “um PIB reduzido é consequência direta de problemas macroeconômicos que impactam a nossa realidade”.

Para reverter essa situação e destravar a economia, o administrador acredita que o governo deva atuar em várias frentes como redução dos gastos públicos, maior eficiência produtiva, redução da burocracia estatal e criação de novos produtos e serviços que, preferencialmente, possam ser exportados. “Não obstante, algumas dessas mudanças dependam de aprovação legislativa, mas outras podem ser implementadas diretamente por atuação do Poder Executivo. Essa deve ter sempre como foco a austeridade nos gastos e uma busca obsessiva por simplificação de processos e redução da burocracia, de tal forma que desonere o capital produtivo tanto em aspectos monetários quanto no tempo dispendido”, classifica.

Não obstante estas dificuldades, Girotto também vê o problema da concentração de renda no País como um grande entrave, uma vez que impacta diretamente na retomada do crescimento e do desenvolvimento. “Ao elevar a renda do brasileiro médio, sua propensão a consumir aumenta; para as classes de renda mais alta, um aumento na renda não necessariamente implica em aumento no consumo. Logo, as políticas de redistribuição de renda não só tem cunho social, como também econômico”, sugere o economista.

Por fim, o taquaritinguense Gabriel Borelli Guedes, estudante de Economia da Universidade Estadual de Londrina, recorda que com o fim das eleições de 2018, houve uma boa reação do mercado. “Havia expectativa de maior crescimento da economia e o PIB era estimado por volta de 2,5%. Isso foi causado, principalmente, com base na agenda liberal do ministro Paulo Guedes. Já em 2019, as tensões e incertezas do governo provocaram um movimento retroativo do mercado. Continuamos a assistir uma taxa de desemprego de 12%, o que prova que a discussão em torno Reforma Trabalhista não teve êxito para esse fim. Portanto, estima-se que o PIB fique entre 1 e 1,6%. Para mudar este cenário, é fundamental a abertura de crédito, incentivo fiscal para a indústria e comércio e o aumento dos investimentos públicos -, vetores importantes para geração de emprego imediato”, finaliza Guedes.

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